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Sem crise para as fintechs

A oportunidade para o mercado de fintechs no Brasil cresce com o aumento das transições bancárias pela Web

 

Dados da Febraban indicam que mais da metade das transações bancárias no Brasil já são feitas pela Web – 36% através de dispositivos móveis e 22% por Internet Banking. Somente 8% são realizadas nas agências, que, desde 2016, vêm baixando as portas e reduzindo em média 4% ao ano. De 2013 a 2017, o número de usuários de serviços bancários digitais tem crescido 32% ao ano, alcançando 118 milhões de clientes. Tem mais. 25% dos brasileiros ainda não são bancarizados, de acordo com o Banco Central.

Todos estes indicadores constam da primeira edição do Brazil Digital Report, organizado pela McKinsey & Company com apoio da Brazil Silicon Valley, e demostram o tamanho da oportunidade para o mercado de fintechs no País, um segmento que está caminhando na contramão da crise econômica.

 

fintechs

 

Desde 2015 o número de fintechs no Brasil está crescendo 96% ao ano e já são mais de 400 startups de tecnologia financeira em operação, conforme aponta o Radar Fintechlab 2018, o que representa 8,8% das startups do País. A efervescência das fintechs contrasta com o cenário recessivo, alto desemprego, desaceleração do consumo e retração de investimentos na economia nacional, que cresceu tímidos 0,6% nos últimos oito anos. Basta dizer que entre as cinco empresas que se tornaram unicórnios recentemente, três são fintechs: Nubank, PagSeguro e Stone.

No final de 2013, o Banco Central regulamentou a oferta de serviços de pagamento, o que trouxe novos players ao mercado de transações e aumentou a concorrência com os bancos. A consequência das novas regras é visível e ocasionou uma avalanche de novas empresas e investimentos.

Segundo o estudo “As tendências de meios de pagamento no Brasil em 2019”, o valor investido em fintechs de meios de pagamento no país alcançou a marca de R$ 1,5 bilhão em 2018, um crescimento superior a sete vezes na comparação com 2016, quando foram aportados R$ 203 milhões. Várias recentes notícias divulgadas na mídia comprovam a tendência de digitalização do setor bancário e o crescimento da oferta de serviços, especialmente meios de pagamento, crédito e contas digitais.

A japonesa Softbank vem demonstrando apetite pelas fintechs brasileiras e despejou US$ 200 milhões na Creditas, avaliando a empresa que atua no segmento de crédito com garantia em US$ 700 milhões, e, segundo fontes do mercado, está negociando também um aporte no Nubank a um valuation que pode chegar a US$ 10 bilhões, o que tornaria a startup brasileira a segunda fintech com maior valor de mercado do mundo. A empresa acaba de anunciar que captou R$ 375 milhões através de uma oferta pública de letra financeira subordinada (LFSN). Em outubro do ano passado, já havia recebido US$ 180 milhões da chinesa Tencent em uma avaliação de US$ 4 bilhões. No final de 2017, lançou a NuConta, sua conta de pagamento, e há poucas semanas revelou novos serviços, como empréstimo pessoal e investimento em RDB.

O PagSeguro, que fez seu IPO no início do ano passado na Bolsa de Valores, levantando US$ 2,3 bilhões, também lançou sua conta digital, a PagBank. Desvinculado das suas maquinhas, o serviço não cobra mensalidade e possibilita fazer pagamentos com celular utilizando QR Code, recarga de celular e transferência de recursos para outras instituições. A Stone, processadora de cartões, também abriu capital na Nasdaq em 2018 e levantou US$ 1,5 bilhão.

 

 

Além de Nubank e PagSeguro, várias outras fintechs disputam a preferência dos correntistas com contas isentas de taxas, entre elas Banco Inter, Agibank, Banco Neon e ModalMais. Dispostas a não perder mercado para as novatas, os grandes bancos, que até hoje concentraram boa parte da clientela – os 5 principais ainda detêm 82% de market share -, decidiram lançar suas próprias contas digitais: Banco Next (Bradesco), Superdigital (Santander), Sofisa Direto (Banco Sofisa) e Conta Fácil (Banco do Brasil e Caixa).

Com o alto endividamento do brasileiro e inadimplência recorde (40% têm ao menos uma conta que não conseguem liquidar), no segmento de crédito a movimentação também tem sido intensa. Nos últimos 12 meses, as fintechs de crédito arrecadaram R$ 455,9 milhões em investimentos, o que representa mais de 27% do total investido em fintechs no Brasil, segundo monitoramento do Conexão Fintech.

 

 

No mercado corporativo há uma forte expectativa especialmente para o segmento de crédito para pequenas e médias empresas, que sofrem com a falta de oferta de capital pelas instituições tradicionais. Com planos de atuar neste nicho, o PagSeguro comprou no início do ano o Banco Brasileiro de Negócios (BBN). Várias outras startups brigam pelo mercado de empréstimos online para PMEs através do peer to peer lending, como TuTu Digital, Firgun, Kavod, IOUU, Biva e Nexos.

Se analisarmos o mercado global de fintechs, a previsão é de tempo firme. O investimento nas startups de finanças atingiu recorde em 2018, alcançando um total de US$ 39,57 bilhões, segundo pesquisa feita pela CB Insights com 1.707 empresas. Nos Estados Unidos, as fintechs alcançaram um recorde de US$ 11,89 bilhões por meio de 659 investimentos. Na Europa, foram US$ 3,53 bilhões.

O mesmo estudo mostrou que o valor cresceu em consequência de 52 rodadas de investimentos superiores a US$ 100 milhões realizadas no período, somando US$ 24,66 bilhões. Apenas a Ant Financial, fintech do Grupo Alibaba, recebeu impressionantes US$ 14 bilhões — 35% do total de 2018.

Tivemos ainda o aporte de US$ 17 bilhões da Blackstone na Refinitiv; a compra por US$ 2,2 bilhões da empresa sueca de pagamentos iZettle pela PayPal; e a aquisição da empresa de pagamentos Verifone Systems por US$ 3,4 bilhões pelas companhias de private equity Francisco Partners e British Columbia Investment Management.

Não há dúvida que a revolução gerada pelas fintechs causará impactos ainda mais significativos no mercado financeiro. O Brasil, em particular, reúne os ingredientes perfeitos para estar entre os líderes desta revolução. É uma transformação que certamente vale a pena continuar acompanhando de perto, seja você consumidor, para se beneficiar de um mercado cada vez mais competitivo e democrático; investidor, para abraçar as melhores oportunidades de apoiar as startups; ou empreendedor, para levantar negócios em um mercado que, tudo indica, foi esquecido pela crise.

Você não vai querer ficar de fora dessa, vai?

Olle Widén

sueco que vive no Brasil desde 2010, atualmente é CEO e Co-fundador da FinanZero, fintech de capital sueco que opera como buscador de empréstimo online para oferecer crédito pessoal junto a instituições financeiras (marketplace).

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