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Percepções e Insights do Web Summit 2019

Tendências além de tecnologia e negócios disruptivos

 

Uma semana após o fim do Web Summit é um bom tempo, ainda que insuficiente, para tentar descrever a experiência de participar mais uma vez do maior evento de tecnologia da Europa e um dos maiores do mundo. A edição de 2019, a maior realizada até então, contou com mais de 70 mil participantes nos 4 dias de evento em Lisboa. Foram mais de 1200 palestras de assuntos relacionados à tecnologia, desenvolvimento de negócios disruptivos, economia criativa, proteção de dados, sustentabilidade e sociedade, além da presença de mais de 1200 investidores que estão de olho nas 2150 startups que expuseram suas ideias e negócios no evento.

Pra quem ainda não conhece, o Web Summit é um evento que não se limita às palestras e exposições de empresas e startups. Além de uma feira internacional, a organização possibilita um espaço para networking internacional com participantes de mais de 163 países, fazendo do evento um encontro global com a maior diversidade de geeks, empreendedores e entusiastas de tecnologia do mundo. Além disso, o conteúdo do evento que provoca debates importantes não apenas nas dezenas de tendas e espaços de todos os imensos pavilhões do Parque das Nações em Lisboa, mas também pauta as discussões do mundo da tecnologia e dos negócios a partir dele.

 

As palestras

 

Centre Stage do Web Summit 2019. | Foto: Fernando Antunes.

Além do Centre Stage, o grande palco principal no Altice Arena (um estádio indoor ao lado dos pavilhões), o Web Summit conta com mais de 30 palcos paralelos, dividindo as apresentações e workshops simultâneos. São discutidos assuntos relacionados à tecnologia como educação, marketing, conteúdo, automação, finanças, blockchain, cryptocurrencies, saúde, sustentabilidade, sociedade e empreendedorismo. As startups, por exemplo, têm oportunidade de apresentar suas soluções em vários palcos e até de participar de uma concorrência dentro do próprio evento.

 

A exposição

Além das grandes empresas do setor que marcam presença no Web Summit, mais de 2000 startups de todo o mundo se intercalam entre os dias do evento apresentando suas soluções. A participação das startups é bem diversificada – são separadas por setor e por estágio de desenvolvimento – fazendo com que até um projeto em fase inicial possa se apresentar para investidores e fazer networking em nível global. Algumas startups, inclusive, já saem do evento com contrato firmado, seja com um investidor anjo ou um com venture capital internacional.

Além disso, diversos países do mundo estabeleceram presença no Web Summit para apresentar seus programas e ecossistemas de desenvolvimento de startups, atraindo a visita de empreendedores de todos os continentes.

 

Os destaques do Web Summit

Edward Snowden

“A única maneira de proteger alguém é protegendo a todos”. Esta foi a frase mais marcante de Edward Snowden já na noite de abertura. Ele detalhou como os sistemas entrincheirados na Internet tornam a população vulnerável para o benefício dos privilegiados e argumentou pela reestruturação de como as empresas operam na Internet. Veja a palestra na íntegra abaixo:

In conversation with Edward Snowden from Web Summit on Vimeo.

Michel Bernier

No primeiro dia, Michel Barnier compartilhou sua perspectiva sobre a dificuldade única do Brexit. Ele falou sobre como, em vez de um divórcio, a Europa e o Reino Unido precisam reformular seu relacionamento e construir uma nova parceria que promoverá estabilidade futura para todos. Assista aqui:

The EU after Brexit from Web Summit on Vimeo.

Tony Blair

O ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair falou sobre um novo relatório do Instituto, que leva seu nome, para lidar com a turbulência da política ocidental desde o prisma da reação contra a globalização após a crise financeira de 2007-2008, a ascensão dos movimentos populistas e os efeitos da tecnologia na sociedade, nos políticos e nos formuladores de políticas. Blair defendeu uma “nova geração de reguladores” que possa ter uma perspectiva internacional, ter conhecimento técnico comparável às grandes empresas de tecnologia e ser fluente nos mesmos fundamentos da grande tecnologia.

Veja o relatório do “Tony Blair Institute for Global Change” no link (disponível somente em inglês).

Margrethe Vestager

 

Web Summit 2019
Margrethe Vestager no Web Summit 2019. | Foto: Web Summit 2019.

Ex-Ministra da Dinamarca (Economia e Interior, Educação), atualmente atua como Comissária da União Europeia para Concorrência e foi nomeada vice-presidente da próxima Comissão. Ela é uma das mulheres mais influentes na tecnologia hoje. Durante seu discurso, enalteceu a comunidade presente no Web Summit e seu papel influenciador para fazer a tecnologia servir aos seres humanos. Ela reconheceu a importância da inovação para servir os seres humanos, mas apontou que a tecnologia e, especificamente, a Inteligência Artificial, não tem limite e, portanto, requer uma compreensão de todos os pilares. Para confiar no que a inteligência artificial se propõe, segundo ela, é preciso garantir que não haja viés.

Um dos principais tópicos abordados durante essa discussão foi sobre os direitos digitais e como as pessoas se sentiriam confortáveis ​​com os dados que estão sendo coletados sobre eles. Margrethe Vestager acredita que o mercado ajudará a resolver esse problema, com organizações maiores sendo mais responsáveis. Ela citou Mark Zuckerberg como exemplo por considera-lo criador de uma empresa incrível, argumentando que ele próprio poderia ser mais atuante nesse sentido, e suas palavras seriam catalizadoras de mudanças rapidamente. Margrethe afirmou que o ponto principal de tudo isso é que podemos ter novas tecnologias, mas não termos novos valores. Dignidade, integridade, humanidade ainda são a mesma coisa.

Akon

 

Foto: Fernando Antunes

Artista que dispensa apresentações, Akon falou sobre a AKOIN, seu projeto de cryptocurrency na Africa e a importância da descentralização financeira para desenvolvimento do continente.

 

Marketing em 2020

Profissionais de marketing reconhecidos e premiados em todo o mundo, como Fernando Machado, CMO do Burger King, Gail Heimann, President & CEO da Weber Shandwick, Katia Bassi, CMO da Lamborghini e Marty Swant, Repórter da Forbes e mediadora da mesa discutiram sobre tendências do marketing em 2020, justamente em um momento cada vez mais disruptivo do mercado.

Assuntos como melhoria da experiência do cliente e do relacionamento através de tecnologias como realidade virtual e inteligência artificial, tomaram parte da discussão, assim como pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias emergentes.

Mada Seghete

Nascida e criada na Romênia, Mada foi para os EUA estudar Engenharia da Computação na Cornell University e depois obteve seu MBA em Stanford.

Atualmente, ela lidera o marketing e também é co-fundadora da Branch Metrics. No Web Summit, Mada participou de diversos painéis, sendo sua palestra sobre tendências em Mobile Marketing uma das mais interessantes. Entre diversos números e estatísticas que apresentaram a importância do meio mobile na estratégia de negócios de empresas de diversos setores e outras previsões, Mada destacou como tendência o foco contínuo na conversão de usuários da web para aplicativos, o foco na resolução de identidade nos meios mobile e cravou que a realidade aumentada expandirá e começará a avançar em direção ao mainstream em 2020.

François-Xavier Pierrel

Chief Data Officer da JCDecaux, a gigante mundial da out-of-home advertising, François-Xavier é o responsável pela estratégia global de dados da JCDecaux para acelerar a transformação digital da mídia OOH. Em sua palestra, mostrou o que a publicidade em celulares e a mídia externa tem em comum. Veja no vídeo abaixo um dos exemplos como isso é possível:

 

 

Muneeb Ali

CEO da Blockstack, Muneeb contou como a tecnologia descentralizada mudará a vida das pessoas nos próximos 10 anos e descreveu seus planos para o crescimento da rede de computação descentralizada da empresa, na qual os usuários controlam seus dados e logins. Conheça mais sobre a Blockstack clicando aqui.

 

E aí?

Com um espaço tão multidisciplinar e plural, pode até parecer para os menos atentos que seja difícil acompanhar ou aproveitar tudo que o evento oferece. No entanto, o Web Summit tem na sua pluralidade um de seus pontos mais positivos. É neste caldeirão de ideias e projetos que se constroem novas oportunidades e que se expandem as fronteiras da inovação, do conhecimento e de novos negócios. Talvez por isso o evento se tornou, de certa forma, um espaço fomentador de tendências e catalizador de oportunidades.

De uma forma em geral, no mundo da tecnologia, existe a tendência de empolgação com a inovação, porém, é sempre preciso ter atenção na intensidade do entusiasmo, tendo em vista que a tecnologia sozinha não resolve todas as questões do ponto de vista de negócios ou até mesmo de sociedade. As discussões sobre a importância da sociedade no centro das questões foram muito evidentes e importantes no evento desse ano, seja em discussões que abordavam pessoas como cidadãs, seja como clientes.

Do ponto de vista mercadológico, o caminho para o sucesso é sempre assunto das principais mesas. Foi quase unânime a afirmativa de que focar nos resultados e combiná-los com a tecnologia adequada é o melhor caminho. “Mais foco nas pessoas” foi uma das frases mais repetidas, quase como um mantra. Este foi o cerne de grande parte das discussões que envolveram discussões sobre tecnologia Blockchain, por exemplo.

Exemplos recentes do potencial impacto da blockchain nos mercados financeiros vão muito além dos aplicativos iniciais, empréstimos P2P ou financiamento coletivo. Na discussão de blockchain foram, por exemplo, abordados temas como:

  • o uso da tecnologia para melhorar a democracia e proteger processos eleitorais;
  • o potencial transformador da tecnologia blockchain e de outras novas tecnologias (como Inteligência Artificial) para assistência médica em benefício de pacientes e prestadores de serviço;
  • os benefícios da implementação de blockchain e inteligência artificial em serviços financeiros; particularmente como e por que ambas as tecnologias estão preparadas para transformar todo o setor;
  • a aplicação da tecnologia blockchain por diferentes setores, como por exemplo, na área de marketing.

Sobre aplicação da tecnologia blockchain na área de marketing, escrevi recentemente um artigo que, mesmo de forma resumida, apresenta algumas oportunidades no uso dessa tecnologia no setor. É só clicar aqui pra ler.

Outras discussões igualmente relevantes foram palco de apresentações, dentre elas as novidades que 2020 traz para o mundo do marketing, principalmente, a inteligência artificial. A importância de compreender como reinventar a marca na era digital, como integrar os diversos meios e pontos de contato da marca com o consumidor são os maiores desafios atualmente para que clientes possam manter o interesse no seu produto.

Em breve, buscarei aprofundar a discussão de alguns assuntos em artigos exclusivos de cada tema, especialmente sobre a tecnologia Blockchain na atividade de Marketing. Aproveite e deixe seu feedback nos comentários e aponte quais outros eventuais temas gostaria de ler sobre o assunto.

Fernando Antunes

é mestre em Inovação, Marketing e Estragégia (UnB), e professor, palestrante e profissional de marketing com mais de 20 anos de experiência em atividades de gestão e ensino em empresas como Lojas Americanas, Postercope Brasil, Itaú-Unibanco, Universidade Católica de Brasília, IESB / Istituto Europeo Di Design, entre outras. Publicitário formado pela ESPM, pós-graduado pela EPGE-FGV, Fundador da BMS (Brasília Marketing School), atualmente se dedica à projetos de marketing com orientação tecnológica no Brasil e na Europa. Entusiasta e pesquisador da tecnologia Blockchain, Fernando foi convidado recentemente para o OECD 2019 Global Blockchain Policy Forum além de participar ativamente de eventos ligados à marketing e tecnologia em todo o mundo.

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