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Já vivemos no universo de Black Mirror e nem percebemos

O meme “isso é tão Black Mirror!” bombou nas nossas timelines depois da aclamada série da Netflix encher nossas mentes de provocações e dúvidas sobre o futuro, mas nós não paramos para pensar que esse futuro um dia será presente, e no caso esse dia vai chegar (em alguns casos já chegou) mais rápido que esperávamos. E isso não é uma coisa ruim, aliás, não é 100% ruim. A tecnologia sempre ajudou o ser humano a se desenvolver, desde a roda aos smartphones, ela sempre foi nossa aliada a nos tornarmos mais evoluídos e a tecnologia sempre foi incumbida a trazer mais praticidade para nosso dia a dia. Acontece que estamos chegando num nível onde ela passa a nos substituir em muitas tarefas e a nos imergir ainda mais em nossas bolhas sociais, logo, seremos reféns dela. Não podemos ser. Ela tem que ser sempre o nosso superpoder, nunca o contrário.

 

O ser humano como gadget

No episódio “Toda a sua história” da série, somos apresentados a uma realidade alternativa onde possuímos um chip que grava tudo que vimos, ouvimos e falamos e nos permite revisitar tudo isso a qualquer momento. Muito parecido com a droga NZT, apresentada no filme e série “Limitless” que desbloqueia 100% da capacidade do nosso cérebro. Ao pé da letra viramos um ciborgue que para algumas situações e necessidades seria ótimo. Imagine você lembrando de uma fórmula matemática que aprendeu no 1º ano e poder acessa-la agora, 10 anos depois sem nenhum esforço ou pesquisa no Google. O perigo desse gadget, na verdade, é que o ser humano acaba se tornando o gadget, cada vez menos humano e muito mais máquina.

Outra situação muito parecida e muito mais “distópica” que a primeira é no episódio “Volto já” onde uma mulher perde o namorado e se inscreve em um programa que recria o companheiro com base em seus registros nas redes sociais. Seria o início da imortalidade? Sim e não. Por mais legal que a ideia pareça, a maior parte das redes sociais não absorve toda a nossa essência e é isso que torna a situação ainda mais preocupante. Isso aplicado a nossa realidade tornaria imortal muitas pessoas que não são tão agradáveis assim. Melhor que presença física são ideais e ideias.

 

Julgamento e manipulação: quais são nossos limites e até que ponto a mídia e tecnologia podem nos controlar?

No episódio “Urso Branco” vemos uma mulher sofrendo a sua condenação de uma maneira, no mínimo, bizarra. Ela revive todos os dias a mesma situação de perseguição e exposição de sua imagem nas redes sociais. O plot-twist do episódio é que essa é a punição dela pelo crime cometido. É perturbador, mais ainda por saber que no contexto atual em que vivemos nós já fazemos um pouco disso. Compartilhamos brigas nas redes sociais, quando vemos uma situação de perigo, desconforto ou violência nós preferimos filmar a ajudar o necessitado.

Assim como no episódio “Wado” que um personagem de um programa de tv resolve se candidatar a prefeito de uma cidade. Uma persona se candidatando para um cargo público usando uma máscara por trás de um ideal. Isso já existe. Não só pelos facemojis, já anunciados para a próxima geração de smartphones da Apple, mas é só analisarmos o Brasil que tem um histórico recente de candidatos eleitos com base nas personas interpretadas por eles.

No episódio “Nosedive” temos uma situação que já acontece de outras formas na nossa sociedade atual. A segregação de pessoas. No episódio em questão, um app permite que as pessoas deem nota umas às outras e locais escolhem quem entra através dessas notas. Lembrando muito o app Lulu que, em 2013, fez sucesso entre as pessoas dando nota e atribuindo comentários de forma anônima aos seus ex-namorados. Já vimos esse tipo de segregação também em certas baladas e restaurantes, não? Inclusive, a China já cogita aderir a esse formato para incentivar o “bom comportamento” da população. De uma forma similar ao que já conhecemos nos aplicativos de motorista particular. Os pesadelos autoritários da ficção, através da tecnologia, vão se tornar reais muito em breve e as complexidades e injustiças da vida poderão se resumir ainda mais a uma mera nota.

 

Como tudo isso vai afetar nosso mercado e o seu cliente?

Esse monte de spoiler que eu te dei nos últimos minutos são exemplos do que já acontece no nosso cotidiano. Todo dia nascem e morrem diversas startups, diversas grandes ideias e com certeza uma grande empresa de tecnologia já está trabalhando numa forma de te substituir por uma máquina. Nenhuma profissão é a prova de futuro e sim, seu emprego está ameaçado. O que devemos fazer a seguir? O possível para continuar sendo útil dentro dessa cadeia tecnológica que o mercado está se tornando. Prove o seu valor, afinal, se manter atualizado nunca fez tanto sentido quanto faz hoje. Questionar a si mesmo e sua função dentro do seu mercado de atuação é o primeiro passo.

 

O que fazer para evitar os efeitos negativos desse tempo Black Mirror?

Stephen Hawking disse a pouco tempo que nós vamos evoluir tanto que nos destruiremos. Por mais genial que ele seja, só depende de nós repassarmos o conhecimento para as próximas gerações para que continuemos a evoluir, sem deixar nossa humanidade de lado, para que a tecnologia seja sempre uma aliada e nunca uma substituta da raça humana.

Não há problemas em evoluir a ponto da tecnologia ser parte de nós, ela só não pode substituir a essência do que ainda nos torna humanos, sentimentos.

Phelipe Barros

é Publicitário e especialista em redes sociais. Formado pela FAM é Produtor de conteúdo para internet há quase uma década. Viu quase todas as redes sociais nascerem e acredita que a tecnologia pode nos ajudar a tornar o mundo mais inteligente e humano. .

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