Notícias

O Dia da Mulher por mulheres: como estamos sendo reconhecidas no mercado digital

Em reportagem especial com retrospectiva do Dia da Mulher, conversamos com executivas de Marketing e Digital para entender os atuais desafios da mulher neste mercado de trabalho

 

Por Gabriela Manzini*

 

A história é conhecida: as origens da comemoração do Dia Internacional da Mulheres remetem a um incêndio que teria acontecido em 1857. Mulheres que trabalhavam em uma fábrica de tecidos em Nova Iorque teriam feito greve em forma de protesto contra as precárias condições de trabalho da época – tinham uma jornada de aproximadamente 15 horas – e à falta de reconhecimento de seu trabalho – fazendo o mesmo trabalho que os operários homens, elas recebiam cerca de um terço do salário de seus colegas. O resultado não foi positivo e cerca de 130 mulheres teriam morrido em um incêndio criminoso provocado dentro da fábrica.

 

A história e o contexto

É verdade que um incêndio aconteceu em uma fábrica têxtil em Nova Iorque, no entanto, o mesmo ocorreu em 1911 e tinha, em sua maioria, mulheres trabalhadoras, mas também operários homens. O incêndio ocorreu no fim do expediente da Triangle Shirtwaist Company.

Na época, os donos da fábrica foram processados em alegação que o homicídio teria sido criminoso, uma vez que, segundo alegações de trabalhadoras sobreviventes, eles costumavam trancar as portas do local, o que teria impedido a fuga dos funcionários. Por ser uma fábrica de tecidos, o fogo se espalhou rapidamente e matou cerca de 146 pessoas, mais de 100 sendo mulheres. Em julgamento composto apenas por homens no júri – na época, mulheres não podiam ser juradas –, os donos foram absolvidos.

Sem dúvidas o incêndio marcou a luta feminista por melhores condições de trabalho e inclusão das mulheres no mercado, e acabou se tornando um marco simbólico para o Dia da Mulher, data esta internacional, vale relembrar. No entanto, mulheres de outros lugares no mundo já vinham lutando por seu espaço ao sol no mercado de trabalho desde o final do século anterior.

O primeiro marco que se tem indícios factuais aconteceu em 28 de fevereiro de 1908, quando 15 mil mulheres marcharam em Nova Iorque em prol de uma menor jornada de trabalho, melhores e igualitários salários e o direito de voto.

No ano seguinte, as mulheres fizeram outra demonstração social, dessa vez com a benção do Partido Socialista da América, e continuaram a fazer o mesmo todo último domingo de fevereiro até 1913.

Em 1910, durante o II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, que aconteceu em Copenhague, na Dinamarca, Clara Zetkin, membro do Partido Comunista Alemão, propôs a criação de um Dia Internacional da Mulher, sem, entretanto, indicar uma data. Depois do incêndio de 1911, ela chegou a sugerir que o acontecimento fosse lembrado como marco simbólico para as mulheres.

Já em 8 de março de 1917, data que marcou a Revolução Russa, um grupo de operárias entraram em greve e marcharam pelas ruas de São Petersburgo contra a fome e a Primeira Guerra Mundial, que só ajudavam a piorar as condições precárias em que se encontravam. Soldados russos se recusaram a atacar as mulheres e operários homens se juntaram à luta.

A data entrou para a história como símbolo da luta feminista e, em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) decretou o 8 de março como Dia Internacional da Mulher.

 

A mulher nos dias de hoje

Corta para 2017.

Mulheres conseguiram direitos legais na sociedade e os exercem – como o direito ao voto, por exemplo – e conquistaram mais voz na sociedade. Vale lembrar que ainda existem muitos países em que as mulheres não possuem direitos e o respeito demandado, mas vamos nos ater ao Brasil neste momento.

Ainda existem, no entanto, conquistas importantes a serem concretizadas e não é à toa que a presença da mulher no mercado de trabalho, assumindo cargos de liderança e com salários iguais aos dos homens para cargos equivalentes, segue como um dos principais temas da data em 2017. O Dia da Mulher se tornou um dia para trazer consciência e foco na igualdade entre gêneros, no qual homens e mulheres precisam ter os mesmos direitos e deveres.

A linha evolutiva de mulheres ocupando cargos de liderança no Brasil, por exemplo, se concentra apenas em 8%. Apesar de representarem a maioria da população e da classe trabalhadora brasileira, 53% das mulheres consideram que as empresas em que trabalham não oferecem meios para ampliar a promoção feminina a cargos de gestão, segundo levantamento da Sodexo Benefícios e Incentivos do Brasil.

Além disso, 88% afirmam que as empresas não oferecem nenhum plano ou projeto de qualidade de vida específico para mulheres que ajude a conciliar a vida pessoal e profissional – lembrando aqui que é popularmente conhecido que mulheres façam a “dupla jornada de trabalho”, que consiste em trabalhar em seu emprego fonte de renda e, posteriormente, em casa, com os trabalhos domésticos, algo que vem sido fortemente discutido dentro dos lares brasileiros, especialmente nos últimos anos. O levantamento foi realizado no último mês e ouviu 1.052 pessoas que estão trabalhando atualmente, sendo 66,25% mulheres e 33,75% homens.

Como indicou a própria Sodexo, a percepção da pesquisa contraria os Princípios de Empoderamento das Mulheres (WEPs – Women’s Empowerment Principles), uma iniciativa da ONU Mulheres e do Pacto Global que estabelece, em forma de documento oficial, sete princípios para o meio empresarial a fim de empoderar as mulheres no ambiente de trabalho, no mercado profissional e na comunidade. O plano da ONU Mulheres visa igualar a presença feminina e masculina no mercado de trabalho, com base nos princípios de liderança corporativa que consideram a igualdade de gênero.

“Construir um ambiente profissional igualitário, diverso e inclusivo, produz resultados financeiros e não financeiros nas organizações como o aumento do engajamento e satisfação dos colaboradores, reputação e reconhecimento de marca, retenção de clientes e crescimento do lucro orgânico e bruto”, afirmou Aline Tieppo, gerente de Comunicação Interna e Diversidade da Sodexo Benefícios e Incentivos, via assessoria de imprensa.

O levantamento também revelou que, apesar de considerarem que as empresas em que trabalham não oferecem meios para ampliar a promoção feminina a cargos de gestão, metade das mulheres entrevistadas se sente reconhecida pelo trabalho que exerce nas organizações. Além disso, 72% das mulheres e 89% dos homens consideram que as mulheres são tratadas com respeito e dignidade por seus colegas e superiores no ambiente de trabalho.

 

A mulher no mercado Digital

Para entender o papel que a mulher tem ocupado dentro do mercado de Digital e suas ramificações para o Marketing e a Comunicação, fomos conversar com algumas executivas do mercado.

Luciane Aquino, ex-Terra e atual Head de Conteúdo da Organica.

É sabido que o universo digital está associado, em sua origem, à figura masculina dos profissionais. E, segundo Luciane Aquino, consultora em estratégia de produto e conteúdo digital e associada e Head de Conteúdo da Orgânica – aceleradora de negócios baseada na Nova Economia que tem entre seus fundadores o ex-Netshoes Roni Cunha –, o Digital ainda segue muito ligado aos homens, principalmente quando falamos de tecnologia.

“[Tecnologia] É uma das indústrias em que as mulheres têm menor representatividade histórica, e isso vem melhorando muito lentamente. Esse é um cenário preocupante quando pensamos que essa é a indústria que projeta o futuro da humanidade”, comentou Luciane Aquino.

Originalmente graduada em Jornalismo e especialista em Comunicação Digital e Gestão Empresarial, Luciane é ainda mentora e investidora em startups brasileiras, criadora da plataforma de conteúdo de turismo VouViajar e foi vice-presidente global de Mídia e diretora de produto Editorial do portal Terra.

Ela lembra que “não existe inovação onde não há diversidade” e que “criatividade é algo que floresce onde se cultivam e respeitam diferentes visões de mundo”.

Priscilla Erthal, sócia e líder dos projetos relacionados a Varejo na Orgânica, acredita estar vendo uma mudança no cenário, mesmo que esta esteja ocorrendo de forma mais lenta.

“Em comparação ao mercado como um todo, o Digital tende a ser mais à frente do tempo e se aproxima mais da igualdade, mas claro que ainda vemos a disparidade. Ao mesmo tempo, já assistimos a ascensão de executivas a grandes cargos em corporações importantes, principalmente no mundo digital, como a Virginia Rometty (IBM), Marissa Mayer (Yahoo), por exemplo”, explicou Priscilla Erthal.

Priscilla Erthal, ex-CMO do Hotel Urbano, ex-Netshoes e atual sócia da Orgânica.

Priscilla é publicitária especialista em Gestão Empresarial com mais de 15 anos de experiência no universo online, em áreas como Marketing Digital, E-Commerce, Varejo e Internet. Dentre outros cargos de confiança e liderança, foi CMO (Chief Marketing Officer) do Hotel Urbano, braço direito na área de Growth da Netshoes e foi considerada a Melhor Profissional de Vendas pelo Prêmio E-commerce Brasil, em 2014.

A executiva comenta, no entanto, que, para que empoderemos mais nossas mulheres, temos que olhar além do Marketing e da Tecnologia, e entender que “todas as frentes de uma empresa têm que ter um balanceamento, afinal o equilíbrio é essencial na busca dos melhores resultados”.

No que tange o mundo da propaganda digital, segundo Luciana Haguiara, diretora de Criação Digital da AlmapBBDO e jurada em Digital Craft em Cannes do ano passado, hoje, de um modo geral, já vemos mais mulheres em destaque no cenário de comunicação, refletindo um movimento que vem tomando cada vez mais força.

Luciana Haguiara, diretora de Criação Digital da AlmapBBDO

“Posso falar pelo ambiente criativo. Nos festivais de criatividade internacionais, há um grande esforço por parte das organizações para se ter o mesmo número de mulheres e homens nos júris, como palestrantes e nos boards de diretoria. Ainda fica em 40/60, no máximo, mas já é uma grande mudança. Quanto mais mulheres de sucesso puderem mostrar seu trabalho, talento e profissionalismo, mais estarão inspirando outras mulheres.

A conta deveria ser simples: 50/50 para tudo, como, por exemplo, na hora de avaliar um criativo para uma vaga. Estaríamos dando espaço para todo mundo mostrar seu potencial e talento de um jeito justo. No mundo ideal, a gente não precisaria cobrar que mulheres fossem inseridas na conversa, mas até chegar a ele (mundo ideal), ainda precisamos forçar para abrir espaço” afirmou Luciana Haguiara.

Mayumi Sato, diretora de Marketing na eSapines, empresa por trás da companhia Sexlog.com –a rede social adulta líder no Brasil –, o universo digital está tendo que mudar “na marra”.

Mayumi Sato, diretora de Marketing para a Sexlog

“Como qualquer outro mercado, não acredito em mudanças conduzidas em nome de questões altruístas, mas em nome de uma evolução exigida pelo consumidor. As marcas e ações têm sido amplamente fiscalizadas e criticadas pelo que nós chamamos de tribunal da internet e perceberam que, se mantiverem as ideias e decisões conduzidas exclusivamente por homens, não conseguirão atender as novas demandas. Por mais plural e controverso que o movimento feminista possa parecer, ele tem um papel crucial em apontar e fomentar esse tipo de discussão, trazendo à tona questões que estruturais que precisam ser atualizadas”, opinou Mayumi Sato.

Com background na área de Marketing Digital e Gerenciamento de Projetos, sua entrada na Sexlog, que hoje possui mais de cinco milhões de usuários, deu início a discussões mais abrangentes sobre diversidade.

 

Como vencer os desafios atuais

Todas as entrevistadas concordam em um ponto: para vencer os atuais desafios da mulher no mundo do Digital, do Marketing e da Comunicação, ainda é necessário que um debate mais abrangente do papel da mulher na sociedade seja feito.

“Tive sorte ao trabalhar em empresas que ofereciam oportunidades iguais aos homens e mulheres. Nunca me senti preterida em promoções e sempre fui respeitada como líder. Além disso, fui chefiada por mulheres admiráveis e tive mentoras que me deixaram lições muito bacanas. No mundo digital, mais do que barreiras escandalosas, acho que são os pequenos impedimentos os que freiam as mulheres de progredir profissionalmente: ainda são elas as que desistem do trabalho para acompanhar o marido que foi transferido de cidade, ainda são elas as que não podem levar trabalho pra casa porque têm uma segunda jornada doméstica pra dar conta, ainda são elas as que têm a maior parte do trabalho com os filhos quando se divorciam, vão à reunião da escola, ao pediatra, cuidam dos próprios pais. Durante mais de 15 anos atuando como executiva, respondi mil vezes o que meu marido/filhos pensavam sobre as minhas viagens frequentes, e NUNCA vi um colega homem ter que responder a essa pergunta. E olha que eu ouvi esse papo em pelo menos três continentes, em três línguas diferentes! [sic]”, pontuou Luciane.

 

Para Mayumi Sato, promover discussões sobre o assunto no meio corporativo é apenas o primeiro passo para dar visibilidade aos impactos dessa questão nas empresas e “desfazer equívocos que, por ingenuidade ou conveniência, vem se perpetuando há décadas”. Ela acredita que ações efetivas precisam ser feitas para garantir a presença de mulheres no ambiente corporativo.

“Vivemos em uma estrutura machista e heteronormativa, esperar que mudanças ocorram naturalmente – sem as intervenções que o momento exige – é assumir uma postura reativa. Marcas e empresas já começam a compreender que não sobreviverão dessa forma. Promover a equidade de gênero e da diversidade nas empresas é, além de uma questão de justiça, uma forma de alcançar benefícios econômicos para as empresas e para a sociedade. Corporações com maior equidade de gênero apresentam um desempenho financeiro maior. Elas maximizam a extração de valor do capital humano, têm colaboradores mais satisfeitos e comprometidos, são capazes de atrair e reter um maior número de talentos e desenvolvem ambientes mais inovadores”, lembrou Mayumi Sato.

 

E você, mulher, quais têm sido suas experiências no mundo do Digital e de Marketing? Quais desafios ainda sente que precisam ser transpostos e o que têm feito para alcançar esse sucesso?

Compartilhe sua experiência conosco nos comentários e parabéns pelo seu dia!

 

*Gabriela Manzini é jornalista, trabalha com comunicação há nove anos e é especialista em Comunicação Corporativa. Atua hoje com comunicação estratégica, marketing digital e marketing de conteúdo. Em suas passagens por agências de comunicação e marketing, atendeu clientes como Microsoft, Philco, Wacom Brasil, Toshiba Brasil, Citibank, Credicard Hall, Omron, Internacional Shopping Guarulhos, e os cantores Fábio Jr. e Paula Lima. Na área corporativa, trabalhou no departamento de marketing da Shoestock e é a atual gerente de Conteúdo do Digitalks.

Comentários

PUBLICIDADE