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Vazamento de dados: seria esse o começo do fim da era ‘Facebookiana’?

Após escândalos de vazamentos de dados pessoais, Facebook perde seu valor em US$ 35 bilhões – aproximadamente R$ 115,5 bilhões – na bolsa de valores de tecnologia dos EUA

 

O dia 17 de fevereiro deste ano foi um marco para a história do Facebook. Mas se engana quem pensa que o carimbo foi para o bem. Na verdade, podemos considerar como uma ‘mancha’ na carreira do CEO da rede social, Mark Zuckerberg, daquelas que nem cândida é capaz de tirar.

O escândalo se deve ao vazamento de informações pessoais de mais de 50 milhões de usuários da rede que, posteriormente, foram utilizadas sem consentimento por uma empresa americana de análise de dados chamada Cambridge Analytica, a mesma contratada pelo grupo que promovia o Brexit, saída do Reino Unido da União Europeia.

A empresa teria conseguido acesso a esses dados através de um aplicativo que faz teste psicológico na rede social, ou seja, os usuários que fizeram o teste chamado ‘thisisyourdigitallife‘ (essa é sua vida digital, em português) acabaram entregando à CA não só as suas informações, mas também as de todos os seus amigos no Facebook.

Ao todo, 270 mil pessoas participaram do teste, mas como os dados dos seus amigos também foram coletados, esse número chegou aos mais de 50 milhões já citados anteriormente.

Mas como a CA conseguiu esses dados? Bom, ela comprou do Aleksandr Kogan, fundador do thisisyourdigitallife que, ao concretizar a venda, feriu o código de conduta do Facebook, fazendo com que Zuckerberg fosse chamado para depor diante de um comitê legislativo.

Mas a parte interessante da história foi a maneira como a CA utilizou esses dados durante a recente campanha presidencial que elegeu Donald Trump nos EUA. A abordagem e segmentação dos dados obtidos representa uma mudança na maneira como a análise de dados pode ser – e foi – utilizada como ferramenta pra gerar insights e influenciar pessoas de forma sutil.

Bom, não é novidade para ninguém que pesquisadores usam segmentação para atingir grupos de eleitores pré-determinados através da análise de renda, gênero, idade, nível de escolaridade e, nesse caso, afiliação política e preferências de compra. A CA agiu de forma mais agressiva na campanha eleitoral de 2016. Enquanto Hillary Clinton usou apenas segmentação de dados demográficos em sua campanha, eles fizeram a utilização dos dados psicológicos e comportamentais obtidos através do app de testes para a campanha de Trump. E nós sabemos que uma segmentação que conhece a personalidade do seu público acaba sendo mais eficaz no resultado final.

Assim, a CA trabalhou para desenvolver inúmeros perfis com variadas mensagens políticas em torno de temas como imigração, economia, direito a armamento e outros fatores, todos adaptados a diferentes tipos de personalidade para fazer publicidade direcionada e atingir um maior número de pessoas, principalmente os “confusos” que ainda não sabiam em quem votar.

Todo esse escândalo abre a discussão para algo ainda maior. Até onde nossos direitos enquanto civis podem ser violados em nome da publicidade e em benefício de terceiros? Assim como aconteceu com as eleições nos EUA em uma clara campanha de manipulação de dados em favorecimento do atual presidente, nos últimos dias noticiou-se a vinda da CA para o Brasil.

Isso faz lembrar de uma polêmica pouco disseminada em mídia geral, protagonizada por um aplicativo que consistia em mostrar como o usuário seria se fosse do sexo oposto. Desenvolvido pela startup russa, FaceApp e compartilhado por sites como Kueez e Viralemon, assim como a maioria dos outros apps, pede-se para que o usuário faça login com o Facebook para transformar a foto do perfil.

Segundo apuração, o aplicativo coleta outros dados além da foto de perfil, entre eles estão e-mail, lista de amigos, outras fotos e informações sobre sites que o usuário visita. Sem especificar nomes, a política de privacidade do FaceApp diz que eles podem compartilhar os seus dados com empresas parceiras. É preciso ter em mente que jogos, testes e aplicativos aparentemente inofensivos servem exclusivamente para coletar dados que serão utilizados para outros fins, em geral para publicidade direcionada.

Porém, ainda não está claro para as pessoas qual é a maneira certa de utilizar as redes sociais, se é que existe um código de utilização a ser, no mínimo, conhecido. Juridicamente falando, parece que a CA não cometeu nenhum crime, mas violou uma regra do Facebook. Regra essa que deixou brecha para que isso acontecesse. Então, quem é o culpado?

 

Mas o que realmente resta saber é: seria esse o começo do fim do Facebook?

Há algum tempo surgiu uma nova rede social com a intenção de desbancar o Facebook. Na verdade, a Vero existe desde 2015, mas só obteve notoriedade no início de 2018. A proposta da rede é oferecer ao usuário uma navegação livre de publicidade, entregar postagens mais recentes e não as que ela julga ter mais a ver com o seu perfil, como têm feito os algoritmos do Facebook.

A proposta acaba por ser extremamente interessante no quesito navegação e interesses, uma vez que o Facebook se transformou em uma grande vitrine de produtos e serviços que, não necessariamente, interesse a você. A publicidade vem de todos os lados e, apesar de funcional às vezes, acaba sendo exagerada a longo prazo e caindo na mesmice.

Por outro lado, é possível uma rede social sobreviver financeiramente em um mundo cada vez mais consumista?

Particularmente, eu acredito ser impossível sobreviver como rede social sem o uso da publicidade. Afinal, o Facebook começou sem, incluiu discretamente, viu que funcionou e tacou anúncio no ventilador, se transformando praticamente em um marketplace.

Recentemente o Facebook fez uma nova atualização que redesenhou o menu, incluindo a possibilidade de o usuário editar informações a serem compartilhadas e deletar dados, dando mais autonomia ao internauta. Mas será suficiente?

Resta saber se a CA realmente vai poder atuar aqui e qual será o seu papel, caso realmente venha prestar seus serviços em terras tupiniquins, mas principalmente, de que forma ela pode influenciar politicamente, pois vale lembrar que esse ano tem eleição no Brasil.

Fernando Mello

é diretor de Novos Negócios da GTC - Good to Connect. Bacharel em Ciência da Computação pela PUC-SP, liderou campanhas de Performance para empresas como Yoki, Anador, Levi’s, Planet Girls, Ultragaz e outras. É membro do comitê de Search da ABRADI e professor de Performance nas Faculdades Belas Artes, FAAP e na Impacta Tecnologia

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