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Será que superamos a Transformação Digital?

Ela foi musa na agenda corporativa entre os anos 2015 e 2020. Nos últimos três anos, especialmente, passou a ser título de palestra, tema de livro best seller, conteúdo de aula e, mais importante, o tormento de líderes. Estou falando da Transformação Digitalque veio para substituir tudo o que havíamos aprendido na vida, desbancar conceitos e pré-conceitos e forçar um novo jeito de trabalhar, fazer negócios e se relacionar.

Não falamos em outra coisa, a não ser nela, no mundo disruptivo, ágil que demandava negócios exponenciais e pessoas excepcionais para dar conta de tudo. E parecia impossível acompanhar essa evolução. Até que veio uma pandemia. E a transformação digital, quem diria, ficou em segundo plano, ou melhor em nono lugar no ranking de prioridade na agenda das organizações.

É isso o que revelou a nossa quarta pesquisa sobre Tendências de Gestão de Pessoasque ouviu mais de 2.600 pessoas para conhecer suas prioridades, desafios e traçar um panorama do mercado de trabalho brasileiro. De todos os dados coletados na pesquisa, a queda da Transformação Digital na lista de prioridades das empresas foi um dos que mais chamaram a atenção. Entre 2018 e 2020, a dita cuja desfilava no topo da agenda dos líderes, reforçando a preocupação das empresas em virar sua chave analógica o mais depressa possível. Já neste ano, apenas 16,5% das pessoas respondentes disseram que a Transformação Digital está entre seus principais focos de atenção.

A queda foi brusca. E por quê?

Abaixo, listo três fatores que podem explicar esse súbito descaso com aquela que foi pauta de nossas discussões diárias nas empresas.

1. A pandemia acelerou (ou atropelou) a Transformação Digital

Foi a piada mais falada nos fóruns online durante esses dois anos pandêmicos: quem foi a responsável por acelerar a Transformação Digital na sua empresa? A pandemia! Risos à parte, a provocação é mais do que verdadeira. De uma hora para outra tivemos de conhecer e explorar em sua máxima capacidade novas ferramentas, aprendemos a contratar e receber de forma totalmente remota, a perceber que pesquisa de clima pode (e deve) acontecer sem necessidade de um ambiente físico, assim como as avaliações de desempenho e, claro, as reuniões. Aliás, aprendemos a gerar tantos links que tivemos de impor alguns limites na agenda virtual que, sem dó nem piedade, foi invadindo todo nosso espaço. A pandemia nos empurrou para o mundo digital, sem termos tempo de fazer uma adaptação. Não chegou a ser uma transformação. Foi uma virada mesmo, que nos fez a adquirir novos hábitos na marra. Não só o de trabalhar, mas como o de consumir.

Segundo uma pesquisa da consultoria EY Patehrnon, que ouviu mais de 1 mil consumidores entre 18 e 65 no ano passado, 39% aumentaram o volume de compras de itens diversos pela internet. Dificilmente, após a pandemia, vamos voltar ao nível analógico que estávamos há dois anos. Por mais que voltemos a comprar mais em lojas físicas e passemos a nos reunir mais com colegas de trabalho, aprendemos uma palavrinha neste intervalo de tempo: híbrido. Faremos tudo meio lá e meio cá, ou figital para usar a palavra da moda. A necessidade, segundo a frase atribuída a Platão, é a mãe das invenções. No nosso caso e nosso tempo, a necessidade foi a mãe da transformação digital.

2. Surgiram novas (e mais importantes) prioridades

Uma vez enfrentado o bicho-papão da Transformação Digital, outros desafios saltam na agenda de pessoas nesse período, sendo o desenvolvimento da liderança o primeiro deles. Sim, porque num mundo já digital, o que faltou mesmo foi o lado humano para lidar com questões complexas, como perdas, lutos, saúde mental, expectativas e confiança. Tudo isso num cenário de imprevisibilidade. Que tipo de líder é esse que emerge no pós-pandemia? Alguém que entenda muito da estratégia do negócio, mas não apenas. É preciso ter empatia e liderar de forma humaniza, ser resiliente e se adaptar rapidamente às mudanças. Não é simples nem fácil.

Durante anos, focamos em líderes com perfil estratégico e orientado a resultados, com foco em bater meta. A pandemia jogou um holofote na liderança e os/as líderes que mais se sobressaíram no caos foram aqueles/as que souberam passar a mensagem de forma transparente e transmitir segurança diante das incertezas. Foram as lideranças mais humanas que, ao trabalharem numa cultura de confiança, sem fiscalizar entradas e saídas do notebook, conquistaram o melhor de seus times. E se não temos essas lideranças, precisamos desenvolvê-las. Segundo nossa pesquisa, 94% das empresas pretendem investir na capacitação de líderes neste ano. Porque é ele ou ela quem vai dar conta das outras prioridades nesta agenda: a cultura e a comunicação corporativa.

3. Mais um modismo

Seria incorreto dizer que a Transformação Digital foi apenas um modismo nas empresas. Afinal, ela realmente pressionou muitas pessoas a mudarem seus comportamentos e sua forma de fazer negócios. Mas sabemos que o mundo corporativo vive ondas de desafios e de prioridades, impulsionadas sim pela necessidade, mas muitas vezes pela moda. Tivemos a onda do RH Estratégico, a onda do RH que entende (ou fala a língua) do negócio e do RH Analítico, ou people analytics, que, diga-se de passagem, figura em 13º no ranking de prioridades na nossa pesquisa, com apenas 11% das respostas.

Falar em transformação digital, portanto, entre 2015 e 2020, era vital para mostrar o quanto você estava inserido no contexto corporativo. O vocabulário vigente nesse período continha as palavras: disruptivo, exponencial, VUCA, BANI e, claro, transformação digital. Uma nova era se abria e, antes de assimilarmos seus conceitos, passamos a expor nossa preocupação no assunto. Até que entendemos e aprendemos na marra o que tudo isso significava. E ela deixou de ser importante. Ou deixou de fazer parte da moda.

Vale lembrar que o Brasil é gigante e aqui existem inúmeras empresas e líderes com diferentes níveis de maturidade.

Transformação Digital é, antes de tudo, uma Transformação de Pessoas e muitas conseguiram sim se transformarem nesses dois anos desafiadores. Há, porém, uma enorme parcela ainda presa numa outra era, a industrial. São organizações que, mesmo submetidas a uma avalanche de estímulos e provações, preferem seguir sua vida no mundo analógico, com direito a bater ponto diariamente, fiscalizar faltas e ausências, achar saúde mental mimimi e cobrar resultados no grito. Até se darem conta de que foram longe demais.

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Daniela Diniz crédito Marcelo Spatafora

Diretora de conteúdo e relações institucionais do Great Place to Work.

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